O velho testamento segundo Zé Limeira
Por Paiva Neves

Na apresentação que escrevi, há época de publicação do cordel, discorri sobre a polêmica em torno da existência ou não do poeta do absurdo. Afirmei que essa polêmica, ao invés de diminuir, aumenta a
popularidade desse Bardo sertanejo. A obra atribuída a ele é de um
humor refinado e por isso sobrevive ao tempo.
Seguindo a trilha dessa verve
surreal, o poeta Arievaldo Viana
escreveu esse cordel, que tem todos os ingredientes para se transformar em mais
um clássico da nossa poesia de gracejo. Assim como a obra do poeta do absurdo, a obra de Arievaldo tende, também a se tornar eterna.
O poeta cearense, falecido recentemente, assim começa sua narrativa:
Quando Adão andava nu
E mamãe Eva pelada
Veio uma cobra safada
Da espécie surucucu
Dançando um maracatu
Mazurca,
xote e xaxado
Mostrando-lhe um fruto invocado,
Dizendo: - Passe no dente!
Eva escutou a serpente
E inventou o pecado.
São 16 páginas de pura gaiatice e humor refinado. O poeta, beirando a improvisação daqueles poetas de feiras, vai brincando com as informações e personagens bíblicas, tudo bem medido, bem rimado e misturado com o linguajar do povo simples do Nordeste. Nessa brincadeira versificada, o poeta termina dizendo
Quem quiser saber do resto
Dessa história sagrada
Consulte uma tabuada,
Livreto que eu detesto.
Não digam que eu não presto,
Sou poeta de alento,
Mas vou parar no momento
Antes que eu desaprume,
Compre o segundo volume
Com o Novo Testamento.
Dito isso me vem uma pergunta: Zé Limeira existiu mesmo ou é criação da genialidade do nosso povo? Não sei! Mas se tiver existido, com certeza será o parceiro ideal, lá no céu dos poetas, para as conversas do poeta de Canindé.
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